José Medeiros de Lacerda

Leia poesia - A poesia é o remédio da alma

Textos

TUBIBA - O CANGACEIRO QUE VENCEU O DIABO E FOI DERROTADO POR UMA CRIANÇA
(Uma versão Lacerdiana do cordel TUBIBA, O DESORDEIRO, DE Augusto Laurindo Alves)
Tubiba era um cangaceiro
Do sertão alagoano
Vivia atentando o povo
De modo vil, desumano
Com seus instintos brutais
Venceu até Satanás
No Estado Sergipano.

Dizem que nasceu falando
Num dia de sexta feira
Com dez dias caminhou
E namorou com a parteira
Aos sete anos de idade
Chegava em qualquer cidade
Desmanchava qualquer feira.

Seu pai, Manoel Ferreira,
Apelido Manezão
A mãe dele se chamava
Dona Francisca Gibão
Por causa de uma panela
O Tubiba foi a ela
Pra cortá-la de facão.

Seu pai deu-lhe um safanão
Dizendo: - Chega pra lá
Tu num é gente, é um monstro,
Já quis até me matar
É favor sair de casa
Se não eu toco-lhe a brasa,
Você tem que se acabar.

Tubiba disse: - Vem cá,
Bicho feroz não me come
Eu também já visto calça
Tem que ser homem com homem
Se pegar com muita história
Eu dou-lhe de palmatória
Mas voce não me consome.

Manezão disse: - Tu some!
Deu-lhe um tiro nos costados
Tubiba pulou por cima
E o pobre velho, coitado,
Quase que levava fim
Porque Tubiba era ruim,
Deixou o velho envergado.

Nisso chega o delegado
E deu-lhe voz de prisão
Tubiba pulou pra trás
Apertou o cinturão
Dizendo: - Eu arrenego,
Vindo vinte não me entrego
E deu com ele no chão.

Juntou-se um batalhão
Para prender o bandido
Uns de faca e de pistola
Outros, menos prevenidos,
Tubiba na cabeçada
Não tinha medo de nada
Deixou uns dez abatidos.

Mais uns quarenta feridos
Arribou e foi embora
Do meio da confusão
Saiu dizendo, - Eu agora
Vou ver se tomo café
No arraiá de Salomé,
Ver se tem cabra de fora.

Chegando lá sem demora
Encostou-se na bodega
Dizendo, - Bote cachaça,
Daquela forte, que pega,
Que eu quero espalhar os pés
Já matei uns oito ou dez,
Quem brincar comigo cega!

Chega o inspetor na bodega
E logo o repreendeu:
- Rapaz, pise devagar,
Quem manobra aqui sou eu,
Voce é muito mofino
É bom guardar seu destino,
Brincou comigo, morreu.

Tubiba o repreendeu
Dizendo, - Não quero história,
Se tiver bom, caia dentro,
Deixe de jaculatória,
Eu matei trinta e três
E daqui pro fim do mês
Deixo meu nome na história!

Já veio uma precatória
Disposta pra me prender
Chegou um oficial
Desses ruins de se roer,
Dei-lhe um tiro na cabeça
E disse, «Cabra, conheca
Que Tubiba quer viver!»

Agora eu pego você
E te faço de bengala.
Sacudiu-o para trás
E disse: - Ainda me fala?
Deu-lhe um tiro no pulmão
Que arrancou-lhe o coração,
Jogou dentro de uma vala.

O dono da venda fala:
- Meu amigo, vai-te embora!
Tubiba lhe respondeu:
Inda não chegou a hora,
Quem vier atrás de mim
É certeza eu dar-lhe fim,
Mato gente sem demora!

Chega um negro nessa hora
Dos olhos de cururu
E disse: - Isso é lorota,
Eu faço mais do que tu
Já peguei um cangaceiro
Do que se diz carniceiro
E comí-lhe o figo cru.

No meio do sururu
Tubiba jogou-lhe embaixo
O negro se levantou
Dizendo, - Também sou macho!
Largou-lhe a mão na barriga
Aí pegaram uma briga
E cairam num riacho.

Um por cima, outro por baixo,
Se pegaram outra vez
O negro disse, - Menino
Eu brigo com dois ou três!
Tubiba lhe respondeu:
- Brigou comigo morreu,
Se arrependa do que fez!

- Eu curto de sede um mês
Passos seis meses de fome,
O meu gênio é de pantera
Pulo igual um lobisome
Pego assim qualquer patife
Bato, guiso e faço bife
E o urubu é quem come!

Tubiba diz, - Tu é home?
- Sou não, sou o Satanaz!
O cabra soltou a faca
Pegou o negro por trás
Amarrou-o com um cordão
Dizendo, - Tá preso, cão,
Pela ordem de São Braz!

O negro disse: - É de mais,
Tire essa canga de mim
Que eu taambém te prometo,
Ninguém nunca te dar fim
Viverei sempre ao teu lado
Te servindo de criado
Nessas lutas sempre assim.

Tubiba soltou-lhe enfim
Ele deu uma gargalhada
O cabra lhe perguntou:
- Quem é que paga a bicada?
Na luta voce perdeu.
O negro lhe respondeu:
- Pra voce não falta nada!

Seguiram de camarada
Dizendo, - Bote cachaça,
Que o mundo agora virou
Hoje nós bebe de graça
Quando findou-se a bebida
Viram a estrada entupida
Com cento e oitenta praça.

Tubiba disse, - Essa graça,
Colega, é para nós!
O negro lhe respondeu:
- Aperte o cinto e o cós
Que eu já tou endiabrado
Só de ver tanto soldado,
O combate hoje é feroz!

Foram aumentando a voz
Apertaram o cinturão
O negro disse, - Tubiba,
Deixe eu ver teu mosquetão
Que do Satanás sou filho,
Quando apertou o gatilho
Botou cinquenta no chão.

O resto do batalhão
Correu tudo de cardume
Foram desembestados
Cair dentro de um curtume
Alguns que se atrapalharam
Tubiba e o cão sangraram,
Como era de costume.

Pra que a história se resume
Ficou somente um tenente
Porque não passou por perto
Nem do cheiro da aguardente
Saiu correndo a galope
Pulando e dando pinote
Como gato na água quente.

Se apartaram, finalmente,
O cão disse, - Voce veja
No lugar onde estiver
Nunca respeite peleja
E pode chamar por mim
Que para tudo eu dou fim,
Só não brigo na igreja!

Mais amargo que cerveja
Tubiba foi pra Junqueiro
Chegou na casa de um velho
Falou-lhe cá do terreiro:
- Velho do rosto lambido,
Aí tem feijão cozido
Para dar a um cangaceiro?

O velho veio no terreiro
Com uma pistola na mão
Deu-lhe um tiro na orelha
Tubiba disse, - Velhão,
Tua pistola é de barro,
Tenho tirado catarro
De cabra mais valentão!

Já com o punhal na mão
Pegou-o pela abertura
Deu-lhe cinco punhaladas
Que lhe arrancou o fuçura
E chegando no fogão
Danou-se a comer feijão
Com farinha e rapadura.

Antes do fim da fartura
A casa estava cercada
Um capitão, dois sargentos
De baioneta calada
Um sargento perguntou:
- Porque ao velho matou?
Largue as armas, camarada!

Tubiba disse, - Que nada,
Agora que enchi a pança
Pode tocar a corneta
Que eu quero entrar na dança
Vou matar o mundo inteiro,
Desde o mês de fevereiro
Que o meu rifle não descansa!

- Vamos deixar de lambança,
Se entregue, não faça ação!
Tubiba nem respondeu,
Disparou-lhe o mosquetão
Matou logo os dois sargentos
Francisco e Pedro Sarmento,
Só ficou o capitão.

E todo seu batalhão
Brigando contra Tubiba
Morreram logo uns quarenta
Disse o capitão: - Arriba!
Com Tubiba no pagode
Nem mesmo o Satanás pode,
É fogo na macaíba!

E finalmente Tubiba
Mais uma luta venceu
Agora vocês vão ver
De que forma ele morreu
Ali mesmo no Junqueiro
Na morada de um vaqueiro
Foi onde a morte se deu.

Um menino apareceu
Dizendo malcriação
Tubiba lhe pediu água
O garoto disse não
- Vou te fazer um bagaço.
E pegou-o pelo braço,
Sapecou-lhe o cinturão.

Perto tinha um outro irmão
Que caçava uma rolinha
Com uma espingarda velha
Que nem mesmo fecho tinha
Viu o irmão apanhando
Dele foi se aproximando
Com a sua espingardinha.

Foi dizendo, - Seu murrinha,
Você já matou meus pais,
Tá batendo em meu irmão
Já bateu, não bata mais!
Tenha mais comportamento,
Peço pelo mandamento,
Pelos dons celestiais!

- Disarreda, Satanás,
Menino nunca foi gente!
O menino deu-lhe um tiro
Que lhe arrancou quinze dentes
Saindo no cabelouro
E ainda matou um touro
Porque estava na frente.

Desencarna finalmente
Esse monstro desordeiro
Inda hoje em Alagoas
Se comenta esse roteiro,
Quando um bandido se cansa
Pela mão de uma criança
Deixa de ser cangaceiro!
Cangaceiros XXVIII
Zé Lacerda
Enviado por Zé Lacerda em 01/02/2011
Alterado em 16/02/2011
Copyright © 2011. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras